segunda-feira, 14 de abril de 2014

“A Terra é azul”, dizia astronauta russo há 53 anos

A primeira viagem tripulada aconteceu em 12 de abril de 1961; o russo Yuri Alekseievitch Gagarin foi o primeiro homem a ir ao Espaço



(Terra) Há 53 anos, a Rússia passava à frente na corrida pela conquista ao Espaço tão disputada com os Estados Unidos durante a Guerra Fria.

No dia 12 de abril de 1961, acontecia o primeiro voo espacial tripulado por um ser humano, realizado pelo cosmonauta soviético Yuri Gagarin, 27 anos.

Na manhã daquele dia, Gagarin foi lançado para uma viagem à órbita terreste às 9h07 (horário local). Sua nave espacial, Vostok, foi enviada do alto de uma plataforma de 30 metros na região de Tyuratam, no Cazaquistão, hoje conhecida como o Cosmódromo de Baikonur.

Durante seu lançamento, conta-se que ele teria dito "Poyekhali", ou seja, "lá vamos nós".

O voo de 108 minutos foi a primeira prova de que seria possível para seres humanos sobreviverem sob a gravidade zero, o que era bastante temido. Na época, achava-se que a falta de gravidade poderia alterar, de certa maneira, as funções vitais do corpo e, por isso, a nave espacial recebeu os comandos diretamente da base e Gargarin só teria controle em uma situação de emergência.

Para isso, ele recebeu um envelope contendo códigos que permitiram que assumisse o controle da nave espacial com o auxílio de um computador que havia a bordo.

Corrida espacial
A missão espacial tripulada foi um grande golpe de publicidade para a União Soviética, que já havia lançado anteriormente o primeiro satélite artificial, o Sputnik, em 1957.

Na época, em plena Guerra Fria, a União Soviética disputava com os Estados Unidos o poderio bélico e tecnológico e "as primeiras vezes" eram usadas pela União das Repúblicas Socialistas Soviéticas para afirmar sua superioridade tecnológica e bélica.

Na época, era sabido que os Estados Unidos tentariam enviar o astronauta Alan Shepard em um voo sub-orbital em maio, e, por isso, a Rússia correu para escolher um possível piloto para viajar ao espaço. Durante o treinamento, vinte candidatos foram submetidos a um regime de severo que envolvia longos períodos em câmaras de isolamento.

Muitos dizem que Gagarin teria sido escolhido por ser de origem humilde, já que era filho de operários, e que sua presença em uma missão tão importante serviria como uma maneira da URSS demonstrar que todos poderiam ser bem-sucedidos dentro do regime socialista.

Em contrapartida, outros acreditam que o cosmonauta teria demonstrado desempenho extraordinário durante as provas. A seleção final estava entre ele e o piloto de teste German Titov, que era de uma família de classe média.

O piloto
Comparado a Cristovão Colombo pela sua conquista de novas fronteiras, Gagarin foi o primeiro ser humano a ver a Terra de cima.

O russo de 27 anos e 1,57 metros estava a bordo da Vostok-1, lançada do Cosmódromo de Baikonur e permaneceu em órbita durante uma hora e 48 minutos, a 315 km de altitude e a uma velocidade aproximada de 28 mil km/h.

Ele morreu em 1968 em um treinamento comum durante um voo de jato. Gargarin não chegaria a ver a conquista do homem à Lua, que aconteceu no ano seguinte.

A Terra é azul
É de autoria de Gagarin a frase “A Terra é azul”, eternizada como a reação espontânea à vista externa do planeta. Porém, ao observar a Terra pela primeira vez, Gagarin teria declarado: “Através da janela, eu vejo a Terra. O chão é claramente identificável. Eu vejo rios e as dobras do terreno. Tudo é tão claro…”.

Acredita-se que a frase "A Terra é azul" tenha sido falada no solo, após seu desembarque.

Retorno
Depois de quase duas horas, o russo voltou ao solo e, por pouco, não morreu. Por causa de defeitos técnicos, a temperatura dentro da cápsula se tornou perigosamente elevada. Por pouco, o russo não perdeu a consciência, após a cabine ter girado violentamente.

"Eu estava dentro de uma nuvem de fogo, me dirigindo para a Terra", contou na época.

Gagarin saltou de paraquedas antes de sua cápsula atingir o solo, pousando perto do rio Volga, ao norte da Rússia.

Em seu retorno, o russo foi transformado repentinamente em um ídolo mundial. Monumentos foram erguidos em sua homenagem, ruas foram batizadas com o seu nome em diversas cidades soviéticas. Gzhatsk, a cidade em que ele passou boa parte de sua infância, foi até mesmo rebatizada como Gagarin.
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E mais:
Conheça o primeiro homem a viajar pelo espaco (Infográfico Terra)

quarta-feira, 2 de abril de 2014

Imagens da Nasa mostram 'treino' antes de homem ir à Lua

Fotografias foram feitas três meses antes da viagem da Apolo 11. No dia 20 de julho de 1969, dois homens pisaram no satélite pela 1° vez.


(G1) Fotografias de arquivo da agência espacial norte-americana (Nasa) feitas durante treinamento em Houston em 1969 mostram os astronautas Buzz Aldrin e Neil Armstrong simulando a chegada à Lua. As imagens foram feitas três meses antes da nave viagem da Apolo 11, comandada por Michael Collins.

As fotografias retratam a dupla realizando exercícios em um local que simula a superfície lunar, com areia e pedras. Algumas atividades, como a coleta de amostras de terra lunar e a descida do módulo, fizeram parte dos testes.

As imagens dão uma noção da preparação dos dois astronautas, que passaram 2 horas e 10 minutos na Lua e marcaram a história no dia 20 de julho de 1969.



segunda-feira, 31 de março de 2014

12 diagramas que mudaram nossa compreensão do sistema solar



(Hypescience) Vivemos uma época de espetaculares fotos astronômicas, de animação feita por computador para ilustrar conceitos e descobertas, mas até pouco mais de 50 anos atrás, estes recursos praticamente não existiam, e os estudiosos precisavam usar desenhos e diagramas para representar suas ideias.

Mesmo com um recurso tão parco, ideias e conceitos foram transmitidos e conseguiram mudar a maneira que vemos o mundo. No caso do sistema solar, podemos acompanhar a mudança das ideias e da posição do centro do universo até a compreensão de que somos parte de uma galáxia, um universo-ilha, entre centenas de bilhões de outras estrelas.

Acompanhe esta viagem pelo tempo e pelas ideias com estes doze diagramas, mostrando como a compreensão que tínhamos do sistema solar modificou-se nos últimos 1.600 anos:

sexta-feira, 28 de março de 2014

Indução ou dedução? O método científico de Galileu e de Einstein

(Alfredo Tiomno Tolmasquim - Com Ciência) Pouco mais de trezentos anos separam dois eventos fundamentais para a estrutura do conhecimento humano. O primeiro deles foi a observação do céu feita por Galileu Galilei em 1609, através de seu perspicillum (telescópio), que possibilitou verificar a existência de crateras na Lua, os quatro satélites de Júpiter, novas estrelas e as diferentes fases de Vênus. O segundo foi a observação, por uma comissão inglesa, de um eclipse total do Sol, ocorrido em maio de 1919, e que comprovou a ocorrência da deflexão da luz quando seu feixe passava próximo ao Sol, confirmando a Teoria da Relatividade de Albert Einstein.

Galileu não inventou o telescópio. Ele tomou conhecimento de que um artesão ótico, manipulando lentes côncavas e convexas a diferentes distâncias, obteve um resultado inesperado, permitindo a ampliação de objetos à longa distância. Porém, diferentemente de utilizar o novo instrumento para observar eventos na Terra, ele apontou para o céu para tentar ver melhor aquilo que os olhos não eram capazes de enxergar. Essas observações, como bem sabia a Igreja, traziam grandes perigos ao conhecimento estabelecido na época, que se baseava principalmente na autoridade, seja dos antigos filósofos, seja dos escritos eclesiásticos. Diferentemente da Terra, onde aconteciam os eventos mundanos, o céu deveria ser a morada dos deuses e, portanto, o local da perfeição e da eternidade. O céu, as estrelas e os planetas deveriam ser retratados pelas formas consideradas perfeitas da geometria, como os sólidos regulares ou a esfera. Além disso, a Terra, local onde moravam os homens, feitos à imagem e semelhança de Deus, devia ser necessariamente o centro do Universo e, sobre isso, a trajetória do Sol do alvorecer ao poente sobre as cabeças das pessoas não deixava dúvidas.

Contudo, as crateras na Lua observadas por Galileu demonstravam que os astros tinham imperfeições; as luas de Júpiter mostravam que alguns corpos giravam em torno de outros astros, e não somente da Terra; de forma semelhante, as fases de Vênus comprovavam que este girava em torno do Sol, e não da Terra; e, por fim, a descoberta dos novos planetas mostrava que não se conhecia tudo sobre o Universo, e muito ainda havia para ser descoberto. Suas observações foram publicadas no ano seguinte, em 1610, na obra Sidereus nuncius (O mensageiro das estrelas), trazendo-lhe uma grande fama nos meios cultos da época e a ira da Igreja.

A ideia de que os planetas giram em torno do Sol (heliocentrismo) já havia sido proposta mais de 50 anos antes pelo polonês Nicolau Copérnico. Mas este propunha o heliocentrismo como uma solução para manter a harmonia do Universo, visto que os registros das órbitas dos planetas não coincidiam com os cálculos matemáticos necessários. Um dos discípulos de Galileu, Joaquim Rétido, chegou a afirmar que Copérnico seguia o pensamento de Platão e dos Pitagóricos (discípulos de Pitágoras) quando atribuía movimentos circulares à Terra esférica.

Galileu, na verdade, propunha uma nova forma de se obter conhecimento sobre o mundo, o que veio a ser denominado de método científico. Ele criticava aqueles que não começam seus raciocínios a partir dos dados dos sentidos, nem coadunam as causas das coisas com a experiência, mas, ao contrário, concebem e elaboram em suas cabeças uma certa opinião sobre a constituição do mundo e, depois de a terem formulado, apegam-se a ela, mesmo sem serem experimentadas, de forma a compatibilizar com seus axiomas. Ele mostrava que os sentidos e nossa percepção do mundo podem nos enganar, e que os filósofos e teólogos podiam estar errados. O conhecimento deveria ser obtido através da observação cuidadosa, mediada por instrumentos que permitiriam um aprimoramento dos sentidos, aliada a um raciocínio lógico e investigativo. E, através do novo método, seria possível arrancar do mundo os mistérios mais escondidos. Entusiasmado com os resultados do método científico, o matemático francês René Descartes profetizaria alguns anos mais tarde: “Não existem coisas tão distantes que não sejam alcançadas, nem tão escondidas que não sejam descobertas”.

Posteriormente, essa ideia de que os sentidos podem nos enganar e que as coisas não são necessariamente como aparecem aos nossos olhos veio acrescida de uma outra ainda mais radical, proposta pelo inglês Isaac Newton. Ele afirmava que, em muitos casos, existem várias verdades, dependendo do ângulo pelo qual se observa. Em termos físicos, significaria dizer que não existe um observador preferencial para um evento, todos os observadores são igualmente válidos. Assim, por exemplo, uma pessoa sentada numa carroça em movimento está parada ou em movimento? Ambas as respostas estão corretas, responderia Newton. Ela está parada para o companheiro sentado ao seu lado, mas em movimento para um observador que visse a carroça passar. Essa característica do movimento foi denominada de Princípio da Relatividade.

Outra ideia importante proposta por Newton é a da força entre dois pontos. Um corpo solto no ar não cai porque sua tendência é retornar ao seu local original, como pensavam os gregos, mas porque existe uma força, invisível, que atrai os dois corpos – um em direção ao outro. Essa proposta já seria bastante revolucionária por si só, por justificar o movimento por forças que não podiam ser vistas. Mas Newton foi ainda mais além afirmando que essa mesma força que faz com que os corpos interajam na Terra é a que atua entre os corpos celestes, propiciando seu movimento. Assim, o céu, antiga morada dos deuses, não só havia perdido sua perfeição, como observado por Galileu, mas também sua sacralidade, e era igualado ao mundo mortal e corruptível da Terra.

Mas, assim como as verdades produzidas pelas observações feitas ao telescópio por Galileu eram irresistíveis e tiveram, mais cedo ou mais tarde, de ser aceitas pela Igreja, também era imbatível a nova forma de explicar o movimento proposta por Newton, e colocava a mecânica num lugar privilegiado na ciência. A física permitia que, dadas as condições iniciais de um evento, fosse previsto o resultado do movimento, seja a trajetória de um projétil lançado na Terra, seja de um corpo transitando no espaço. Foi com base na física newtoniana que outro inglês, Edmond Halley, previu a trajetória de um cometa que havia passado em 1682, profetizando que ele retornaria 76 anos depois. Ele nunca pôde confirmar sua previsão, mas outros cientistas o fizeram e o homenagearam batizando o astro errante com seu nome.

A partir das leis de Newton, o mundo passava a ser visto como mecânico, previsível, regido pelas forças físicas e por leis deterministas, traduzidas na linguagem matemática. A própria física, com suas leis mecânicas, passava a ser confundida com o método científico.

A pujança dos resultados da ciência, impulsionados pela mecânica, possibilitou que um engenheiro da Escola Politécnica de Paris, o francês Auguste Comte, vislumbrasse o século XIX como o ápice do processo evolutivo da humanidade. A história seria dividida em três fases sequenciais: a primeira consistia no estado teológico ou fictício, característico das sociedades antigas, onde os fenômenos eram entendidos como eventos sobrenaturais; essa fase teria sido seguida pelo estado metafísico ou abstrato, onde se concentraria o poder da Igreja e os fenômenos eram considerados como produzidos por abstrações personificadas; e, por fim, a história se encaminhara para o estado científico ou positivo, onde todos os fenômenos seriam explicados pela ciência, utilizando o raciocínio e a observação.

Na construção filosófica de Comte, havia uma hierarquia entre os saberes, partindo do método mais simples para o mais complexo. Assim, o primeiro lugar era ocupado pela matemática, que utilizaria apenas o raciocínio lógico para o seu desenvolvimento. Esta era seguida pela astronomia, que, além do raciocínio, necessitava apenas da observação; depois viriam as ciências física, química e biológica, que dependiam ainda da experimentação; e, por fim, a sociologia – a nova ciência da vida em sociedade, que deveria utilizar o método que havia demonstrado tanto sucesso nas demais áreas do conhecimento.

Contudo, ao longo do século XIX as bases mecânicas da física começaram a mostrar suas limitações. As leis que serviam para explicar o movimento dos corpos tanto na Terra como no céu, os fenômenos óticos e acústicos, e a relação entre calor e energia – denominada termodinâmica –, não eram capazes de dar conta dos fenômenos elétricos e magnéticos que passavam a ser objeto de estudo. Novas questões começavam a surgir, como, por exemplo, do que é feita a luz ou de que é constituído o átomo. Paralelamente, os astrônomos ficavam cada vez mais intrigados com uma pequena alteração na órbita do planeta Mercúrio na região em que ele se encontrava mais próximo do Sol.

Os cientistas começavam também a lidar com escalas muitos grandes ou muito pequenas, as quais o método científico estabelecido não conseguia acessar, pois não era possível observar diretamente o que acontecia dentro do átomo ou mensurar a velocidade da luz. Além disso, o determinismo newtoniano, base da física existente, também falhava em prever certos fenômenos, como a trajetória que o elétron faz em torno do núcleo, e que o físico alemão Wener Heisenberg denominou de Teoria da Incerteza. Era necessário, pois, buscar novas teorias que pudessem lidar tanto com as partículas e a energia contidas no interior do átomo, como também com a própria estrutura do Universo. Esse novo arcabouço foi denominado, então, de física moderna, diferenciado da física newtoniana, que passava a ser conhecida como física clássica.

Um dos expoentes da nova física foi o alemão Albert Einstein, que estabeleceu que a luz poderia se comportar tanto como uma onda eletromagnética, como um feixe de pequenos pacotes de energia – chamados quanta. Além disso, de forma a viabilizar a descoberta do inglês James Clerk Maxwell de que a velocidade da luz era uma constante, ele estendeu também para o tempo o Princípio da Relatividade que Newton havia proposto para o movimento, subvertendo por completo o senso comum. (Para alguns estudiosos, a Teoria da Relatividade Restrita, que estabelece que o tempo é relativo ao movimento, pode, devido à sua estrutura explicativa, ser considerada tanto como física moderna como parte da física clássica.)

À semelhança de Galileu, a fama de Einstein decorreu da observação do céu – não por ele, mas por uma comissão inglesa – que comprovou sua previsão de que os corpos produziam uma deformação no espaço, que modificaria a própria trajetória da luz que por lá passasse. Ele também conseguia explicar a alteração no periélio de Mercúrio, ocorrida na região deformada pelo Sol. Outra triste identidade entre ambos é que Einstein também foi muito criticado e perseguido, e teve que fugir da Alemanha para não ser preso ou morto.

O método utilizado por Einstein era, contudo, diferente do da física clássica. Ele inicialmente concebia o problema em sua mente e tentava buscar então formas de solucioná-lo. Diante da impossibilidade de realizar diretamente certos experimentos, ele fazia o que chamava de Gedankenexperiment, ou experimento mental, concebido através de uma raciocínio lógico e imaginativo. Em função disso, os críticos da Teoria da Relatividade chamavam Einstein e aqueles que se dedicavam à nova física de aristotélicos modernos e traidores de Galileu. Para eles, o método do cientista italiano consistia no indutivismo, ou seja, primeiro era feita a observação para, a partir daí, construir as teorias. Diferentemente, eles consideravam que Einstein utilizava métodos especulativos, assim como os filósofos gregos. Muitos dos adeptos da nova física proclamavam que o método de Galileu era na verdade dedutivista, pois ele primeiro criava os modelos mentalmente para só então contrapô-los à realidade. Para provar que Galileu era um dedutivista, foram inclusive desenvolvidos vários estudos históricos mostrando que muitas das experiências propostas por Galileu em suas obras nunca chegaram a ser realizadas de fato. Elas teriam sido construídas apenas em experiências mentais e não chegaram sequer a ser testadas na natureza. Aparentemente, nem os adeptos da física clássica nem os da física moderna queriam abrir mão da autoridade emanada de Galileu!

Esses debates que mobilizaram os estudiosos no século XVII e os cientistas no início do século XX estão pouco presentes hoje em dia, talvez em função da complexidade da ciência, que exige a utilização de diversos métodos concomitantemente, talvez devido a outros tipos de controvérsia, como a distinção da ciência de outras formas de conhecimento ou o papel da ciência na sociedade contemporânea. Pode ser também que com o surgimento de novas teorias, antigas discussões venham a ser revividas e reinterpretas, suscitando novos e acalorados debates.

quarta-feira, 26 de março de 2014

O Cosmos de Giordano Bruno


(Darwin e Deus - Folha) Graças à magia negra da gravação de programas da TV a cabo, consegui assistir hoje (e só hoje, chuif) o primeiro episódio da nova versão da série “Cosmos”, apresentada pelo astrofísico americano Neil de Grasse Tyson. Tá feia a coisa em termos de tempo por aqui. Curti um bocado e estou programando o gravador pros próximos episódios, mas não dá para deixar de comentar, dentro da temática do blog, a maneira como o monge dominicano e filósofo italiano Giordano Bruno (1548-1600) e sua morte nas mãos da Inquisição foi retratada na estreia da série, seguindo na esteira de meu colega Marcio Campos, do blog “Tubo de Ensaio”. A questão é que o consenso entre os historiadores é que Bruno acabou sendo vitimado muito mais por motivos religiosos do que científicos. Em outras palavras, é justo considerá-lo um mártir da liberdade de pensamento e de consciência, mas não exatamente da liberdade da ciência.

Antes de detalhar um pouco mais isso, é preciso tirar algumas coisas polêmicas da frente. É lógico que, por mais que a Igreja Católica achasse que Bruno estava “errado” teologicamente, entregá-lo para ser executado pelas autoridades foi a coisa mais anticristã que poderia ter sido feita. Quem foi perseguido por suas crenças, como os cristãos na época romana, deveria estabelecer como primeira regra jamais perseguir outros por suas crenças. Isso é ponto passivo. Mas também vale a pena tentar entender melhor a figura, e até que ponto o retrato que traçaram dele em “Cosmos” está correto.

A primeira coisa que me chamou a atenção no episódio é a seguinte: a insistência do Bruno versão desenho animado de que sua visão de um Universo infinito era um correlato natural do poder e da majestade infinitos de Deus. Dá a entender que, no fundo, do ponto de vista religioso, não havia diferença substancial entre o monge renegado e seus perseguidores.

Beleza, certamente podemos descrever Giordano Bruno como um sujeito profundamente religioso, mas o que essa descrição omite é que ele tinha uma visão basicamente panteísta de seu Cosmos. Ou seja, para Bruno Deus e o Universo eram basicamente a mesma coisa; o próprio tecido da realidade estava “embebido” de divindade e infinitude. É uma visão totalmente diferente da crença judaico-cristã num Deus transcendente, ou seja, radicalmente separado de sua Criação. Esse foi um primeiro motivo importante para colocar o pobre sujeito em conflito com as autoridades católicas.

A série “Cosmos” também acerta, na hora de encenar a condenação de Bruno, ao citar as acusações religiosas contra ele, como a de negar a existência da Santíssima Trindade ou a concepção virginal de Maria. Consta que ele também dizia que Jesus não teria passado de um mago extremamente habilidoso, além de também alegar possuir certos poderes mágicos (coisa que era relativamente comum na Renascença; muitos intelectuais se interessavam por magia).

Mesmo do ponto de vista científico, tudo indica que o interesse de Bruno pela ideia de que a Terra girava em torno do Sol, ou pelo conceito de um mundo repleto de infinitos sóis, planetas e seres inteligentes, tinha menos a ver com os dados astronômicos (tema a respeito do qual ele não era um grande especialista) e mais com sua paixão filosófica e teológica por um Deus infinito “embebido” no Universo.

Finalmente, os relatos que chegaram até nós dão conta de que frei Bruno era meio que… um escroto. Ou ao menos bastante briguento e arrogante, arrumando intrigas políticas por onde quer que passasse, na França, na Suíça, na Inglaterra e, claro, na própria Itália, onde acabaria sendo martirizado.

É claro que nada disso nem de longe torna o coitado merecedor do destino que teve. Sua coragem diante da condenação foi exemplar. Mas nem por isso o transforma no grande mártir de uma revolução científica que ainda estava engatinhando e que, a rigor, ele nem chegou a compreender direito.
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E mais:
Giordano Bruno e o papa Francisco I (Ulisses Capozzoli - Scientific American Brasil)

segunda-feira, 24 de março de 2014

Única câmera que voltou de missões à Lua é leiloada por US$ 760 mil

Nasa enviou 14 câmeras em missões, mas apenas uma retornou. Peça foi comprada por colecionador privado em Viena.


(France Presse/G1) A única câmera de fotos da Nasa que voltou à Terra após várias missões Apollo na Lua entre 1969 e 1972 foi leiloada neste sábado (22), em Viena, por US$ 760 mil (cerca de R$ 1,8 milhão), superando seu preço estimado.

A câmera prateada, vendida a um comprador que fez lances por telefone, tinha valor estimado entre US$ 200 mil e US$ 275 mil (entre R$ 465 mil e R$ 640 mil).

No total, a Nasa levou 14 câmeras para a Lua entre as missões Apollo 11 a 17, mas apenas uma voltou à Terra.

No geral, as câmeras - que pesavam vários quilos e podiam ser presas à parte dianteira do traje dos astronautas - costumavam ser deixadas na Lua para que os astronautas pudessem trazer pedras lunares de volta à Terra, uma vez que o peso era uma preocupação importante nas missões.

"Tem poeira lunar... Não penso que nenhuma outra câmera tenha esta característica", disse Peter Coeln, dono da galeria Westlicht, que organizou o leilão.

A câmera, vendida a um colecionador privado, foi usada pelo americano Jim Irwin, que tirou 299 fotos durante a missão Apollo 15, em julho e agosto de 1971.

Uma pequena placa no interior da câmera, com o número 38 - o mesmo que aparecia nas fotos da Nasa - "é a prova 100% de que esta câmera é a verdadeira e que de verdade esteve na Lua", detalhou Coeln.
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sexta-feira, 21 de março de 2014

Uma cosmologia medieval reformulada pela matemática moderna

A primeira explicação científica da criação do cosmos, escrita em latim no século XIII, foi agora transposta em fórmulas e simulada no computador. E, tal como a cosmologia moderna, gera uma multiplicidade de universos possíveis.



(Público - Portugal) “E assim, a luz (…), pela sua natureza mesmo, multiplicou-se infinitas vezes e espalhou-se uniformemente em todas as direcções. Foi desta forma que, no início do tempo, ela estendeu a matéria, que não podia deixar atrás, arrastando-a com ela e formando uma massa do tamanho do Universo material.” Esta descrição do início do cosmos, muito evocadora da moderna teoria do Big Bang, foi escrita… em latim, por um bispo e cientista medieval inglês, Robert Grosseteste (c.1175-1253).

Agora, foi revisitada por uma equipa internacional de físicos, cosmólogos, historiadores, filósofos, latinistas, no âmbito de um projecto (The Ordered Universe Project) apoiado pelo Conselho britânico de Investigação nas Artes e Humanidades. “Este projecto representa uma maravilhosa e única fusão entre especialistas medievais e cientistas modernos”, disse ao PÚBLICO Giles Gasper, medievalista da Universidade de Durham (Reino Unido) e um dos principais autores do trabalho.

O estudo revelou que os problemas teóricos com que se defrontam os cosmólogos modernos já existiam há 800 anos (apesar de ser muito improvável que Grosseteste tivesse consciência deles). Os resultados vão ser publicados em breve na revista Proceedings of the Royal Society A (mas já estão disponíveis no site arxiv.org).

Em 1225, no seu curto tratado Da luz ou o início das formas, Grosseteste expunha a primeira explicação científica de sempre da origem do Universo. Claro que, na altura, pensava-se que a Terra, imóvel, era o centro de tudo e que as estrelas e os planetas giravam em torno dela. Claro que Grosseteste não dispunha de ferramentas matemáticas para traduzir as suas palavras em fórmulas. E claro que não inventou a teoria do Big Bang, que deriva das equações da Teoria de Relatividade de Einstein e descreve uma realidade física totalmente diferente.

Mas, mesmo assim, o texto (disponível desde 1942 numa tradução em inglês, a partir da qual traduzimos o excerto acima) não deixa de ser impressionante pela modernidade das ideias que expõe. Foi por isso que Gasper e Richard Bower, físico da mesma universidade, juntamente com outros colegas, quiseram reinterpretá-las à luz da linguagem matemática de hoje – e a seguir, simulá-las num computador para ver se produziriam um Universo tal como Grosseteste o concebia no século XIII.

“O trabalho que Grosseteste fez no seu De Luce é nada menos do que revolucionário”, disse-nos Bower. “A sua explicação do Universo vai para além de todas as anteriores. Aristóteles concluíra que o Universo não tinha início nem fim, mas Grosseteste diz exactamente o contrário, começando por propor uma nova teoria da matéria e desenvolvendo-a numa explicação da criação do Universo. Ou seja, trabalha como um cosmólogo moderno, propondo leis físicas e seguindo-as até ao fim. Acho isso espantoso.”

A cosmologia medieval estipulava, com base nas ideias de Aristóteles, que o Universo estava dividido em dez “esferas” concêntricas (a décima e mais exterior, o paraíso cristão, fora acrescentada mais tarde). De fora para dentro, seguiam-se mais oito, correspondentes ao firmamento (que continha as estrelas), Saturno, Júpiter, Marte, o Sol, Vénus, Mercúrio e a Lua. A primeira esfera, no centro, era a da Terra e era composta por quatro “sub-esferas” dos quatro elementos: fogo, ar, água e terra.

Tal como fazem hoje os cosmólogos para explicar o que a ciência moderna revela acerca do Universo, Grosseteste concebeu a sua teoria de forma a explicar essa visão medieval. Diga-se que, ao longo do seu trabalho, os autores se preocuparam em não “contaminar” a forma de pensar de Grosseteste com ideias modernas: “É crucial evitar sobrepor uma visão moderna do mundo ao pensamento de Grosseteste”, escrevem no seu artigo.

Multiversos medievais
O texto do cientista medieval explica como as interacções entre luz e matéria, que para ele são “inseparáveis”, vão dando origem consecutivamente as esferas celestiais. Isso acontece, explica, devido à rarefacção da matéria à medida que ela se afasta do ponto de origem (arrastada pela luz), e ao facto de, uma vez atingido o limite do seu percurso, a luz ser irradiada da periferia para o centro sob uma outra forma, desta vez comprimindo a matéria. “Tanto quanto sabemos, De Luce é o primeiro exemplo trabalhado a mostrar que um único conjunto de leis físicas poderia dar conta de estruturas tão diferentes como a Terra e o céu”, salienta a equipa num comentário na última edição da revista Nature. O que, acrescentam, “demonstra quão avançada era a filosofia natural no século XIII – que não foi de todo uma Idade das Trevas”.

Quando os cientistas simularam as equações que tinham deduzido da leitura muito atenta do texto em latim de Grosseteste e correram simulações do modelo obtido num computador, aperceberam-se de que, embora elas pudessem efectivamente dar origem ao Universo medieval de Grosseteste, na maior parte dos casos geravam um número infinito de esferas. “Os universos estáveis com um número finito de esferas são claramente a excepção”, escrevem os autores. De facto, alterando ligeiramente os valores dos parâmetros que definem as condições que reinavam no início do Universo, obtêm-se mesmo “cosmos bizarros, onde as esferas não estão ordenadas e se misturam umas com as outras”.

Ora, isso é muito parecido com a noção de “multiverso”, conceito “familiar na cosmologia moderna que considera que o Universo em que vivemos é apenas um dos muitos universos possíveis, cada um deles diferindo dos outros nos valores dos seus parâmetros fundamentais”, escrevem ainda. E, “aplicando a mesma lógica ao Universo de Grosseteste, rapidamente descobrimos que o organizado universo aristotélico (…) requer uma combinação muito especial de parâmetros fundamentais”.

O que significa, concluem, que embora as ferramentas e o conhecimento científicos sejam hoje muito mais precisos, a maneira de trabalhar dos cosmólogos não mudou assim tanto ao longo dos séculos. “Trabalhamos da mesma maneira”, diz-nos Bower. “Construímos leis físicas com base em experiências e teorias que explicam o mundo que nos rodeia e depois extrapolamos essas teorias até ao início dos tempos, partindo do princípio que essas leis se aplicam em todo o espaço-tempo. (…) Mas hoje sabemos que isso tem limitações ­e a única certeza que temos é que as nossas teorias actuais acabarão um dia por ser insuficientes.”
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