sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Há 370 anos, nascia o "maior cientista de todos os tempos"



(GHX / Terra) No calendário gregoriano, o dia 4 de janeiro de 2013 marca os 370 anos do nascimento de um dos maiores cientistas de todos os tempos: Isaac Newton. Embora possa ser conhecido como “o cara da maçã”, que descobriu a lei da gravitação universal, o cientista também prestou contribuições essenciais para a matemática, além de estudar filosofia, alquimia, astronomia, teologia e astrologia. É considerado o pai da física moderna e uma grande influência para outros nomes de sua área, como Albert Einstein.

Seus feitos são numerosos. Dentre eles, a publicação da obra Princípios Matemáticos da Filosofia Natural, em 1687, trata-se de um dos mais importantes. O livro apresentava a lei da gravitação universal e as três leis de Newton, da inércia, da dinâmica e da ação e reação, que descreviam o comportamento dos corpos em movimento e serviram como base para a mecânica. Essas mesmas leis também tiveram destaque no livro Ombros de Gigantes: a história da astronomia em quadrinhos, sobre a importância de cientistas como Kepler, Galilei e Newton para a astronomia.

A perspectiva de Newton mudou tudo. Segundo Jane Gregorio-Hetem, doutora em astrofísica e uma das autoras do livro, o título da publicação foi inspirado na famosa frase proferida por ele, na qual reconheceu a importância dos trabalhos realizados por seus antecessores: “Se vi mais longe, foi por estar de pé sobre os ombros de gigantes”. Para a professora do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo (USP), Newton é considerado o “pai da Física”. “Ele estabeleceu o método científico para estudar os fenômenos físicos. Ele definiu o conceito de força que usamos até hoje, e suas leis são fundamentais para o estudo dos movimentos e da interação dos corpos”, justifica.

Eduardo de Campos Valadares, doutor em física e professor no Departamento de Física da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), destaca o cálculo diferencial e integral, utilizado na física, química, biologia, engenharias, medicina, computação e tratamento de imagens, como contribuições relevantes para a matemática. Além disso, Valadares aponta outras descobertas importantes de Newton à ciência: “Os seus estudos sobre a refração da luz, que faz uma faca imersa parcialmente num copo de água parecer torta, lhe permitiram explicar como o arco-íris é formado”.

As descobertas e contribuições de Newton à ciência são inegáveis. E são elas que conferem a Newton o “título” de maior cientista de todos os tempos. Mesmo assim, Valadares, que escreveu o volume Newton - a órbita da Terra em um copo d`água, da coleção Imortais da Ciência, faz um contraponto: “Creio que o próprio Newton, com toda a sua genialidade, jamais se julgaria o maior cientista de todos os tempos, sobretudo sabendo que a ciência está em contínua evolução e que suas bases são revistas de tempos em tempos”, argumenta. Contudo o físico reconhece que as contribuições de Newton à ciência moderna foram enormes. “Ele demonstrou que as leis físicas que regem o cosmo se aplicam aos fenômenos terrestres, além de propor que os experimentos e a observação constituem o fundamento de toda a ciência. Isso significou um avanço sem precedentes, cujo impacto se reflete nos dias atuais”, ressalta.

Dessa forma, o cientista possibilitou uma compreensão mais racional do planeta. “Newton permitiu que a civilização fizesse a transição de ver a natureza como um lugar místico, além da compreensão da mente humana, para um lugar conhecido, em que podemos usar as leis da física para prever o comportamento da própria natureza”, enfatiza o famoso astrofísico Neil deGrasse Tyson em entrevista ao Terra. Segundo Tyson, a revolução industrial não teria sido possível sem essa transição. Valadares concorda com o astrofísico: “A importância de Newton para a ciência foi demonstrar que o mundo, a despeito de toda a sua complexidade, pode ser compreendido”.

Aplicações
Segundo Jane, as aplicações das descobertas de Newton, na época, foram imediatas, para explicar vários fenômenos: “a queda dos corpos, o movimento balístico, a origem das marés, o movimento da Lua, dos planetas e outros corpos celestes, entre outras”, enumera. Newton também foi o inventor do telescópio newtoniano, que o consagrou como um grande cientista já naquele período. “Este telescópio é usado até hoje e permitiu inúmeras descobertas astronômicas”, explica Valadares.

Para o professor do Departamento de Física da UFMG, a invenção do cálculo diferencial e integral facilitou a confecção de tabelas de funções, como raízes quadradas e cúbicas, pois na época não havia computadores, e todos os cálculos eram feitos à mão. Valadares também ressalta o chamado método de Newton para interpolação, que permite o cálculo do valor de uma função, intermediário a dois valores conhecidos, que é utilizado no tratamento de imagens de satélites, de ultrassom e ressonância magnética nuclear.

No que se refere às aplicações das descobertas de Newton, Valadares acrescenta: “As chamadas leis de Newton da mecânica são essenciais para o cálculo de estruturas de edificações, de navios, asas e fuselagem de aviões, etc. O lançamento de satélites e o cálculo de sua órbita, assim como o lançamento e o controle de naves espaciais são baseados nessas leis”.

O trabalho de Newton pode ser percebido no cotidiano. De acordo com Jane, isso ocorre porque ele utilizou uma teoria unificada para explicar diferentes fenômenos. “Essa teoria é válida em qualquer ponto do Universo. Podemos perceber tais aplicações em diversos exemplos simples do nosso dia a dia, como elevadores, automóveis, pontes, satélites artificiais, missões espaciais, só para citar algumas”, destaca.

A notoriedade
Como resultado da grandeza de seu trabalho, Newton tornou-se mais conhecido na sociedade do que outros cientistas, como Kepler. Há quem questione tamanho reconhecimento, mas, para Jane e Valadares, o reconhecimento é merecido. De acordo com Jane, por todas as suas contribuições científicas, o mérito de Newton é inegável. “Apesar da grande importância de cientistas como Kepler, suas descobertas foram mais voltadas para aspectos observacionais, nos quais se constataram os fenômenos, descrevendo, por exemplo, o movimento planetário. Foi Newton, no entanto, que apresentou a teoria para explicar fisicamente a origem de tais fenômenos”, salienta.

Conforme Valadares, Newton é um caso raro de grande cientista, matemático e inventor. “As suas descobertas em gravitação e óptica foram referências fundamentais para Einstein, que concebeu a Teoria da Relatividade Geral e introduziu o conceito de fóton, a descrição da luz como partícula, no âmbito da física quântica”, explica. Assim, Valadares conclui: “Um gigante que inspira outro gigante da ciência inevitavelmente se torna um ícone”.

Essa sustentação se dá também no estabelecimento do método científico, baseado em “observação, teoria, e comprovação experimental”. Segundo Jane, esse método é válido para qualquer área de conhecimento, e é a sua aplicação que diferencia a pesquisa científica de outros tipos de estudo. “O ideal é que Newton seja cada vez mais famoso, pois conhecer os grandes feitos de Newton significa conhecer a própria ciência, uma carência cultural de nosso País”, finaliza.

Valadares compartilha da mesma opinião: “Revisitar Newton é, a meu ver, fundamental, sobretudo para as novas gerações. O espírito de aventura e de descoberta, a curiosidade e a vontade de entender o mundo em que vivemos parecem obscurecidos em nosso sistema educacional. A atitude de Newton frente ao mundo é fundamental para vencermos os enormes desafios atuais e futuros”.

Vida e Morte
Isaac Newton nasceu em Woolsthorpe, Inglaterra, no dia 25 de dezembro de 1642 (calendário juliano), mesmo ano da morte de Galileu Galilei. No entanto, conforme o calendário atual, a data de nascimento de Newton é 4 de janeiro de 1643. Filho do fazendeiro Isaac Newton, que morreu três meses antes de seu nascimento, e Hannah Ayscough Newton, que o abandonou aos três anos para se casar novamente, Newton teve uma infância triste. De acordo com Valadares, isso o afetou tremendamente. “Ele se tornou um adulto arredio e com um comportamento psicótico”, afirma.

Criado pela avó materna, Margery Ayscough, Newton ingressou, aos 12 anos, na escola The King's School, em Grantham, onde foi um aluno mediano. Em 1659, sua mãe, novamente viúva, o tirou da escola para que ele se tornasse um agricultor. A ideia não deu certo. Henry Stokes, mestre da The King's School, convenceu a mãe de Newton a mandá-lo de volta à escola, para que pudesse completar os estudos. Graças a um tio, estudou em Cambridge, onde, em 1663, formulou o teorema conhecido hoje como o binômio de Newton.

Na época de sua formatura, em 1665, Newton foi obrigado a retornar para casa, devido à peste que assolava a Inglaterra e mantinha Cambridge fechada. O cientista ficou na fazenda durante dois anos, período em que realizou quatro de suas principais descobertas: o teorema binomial, o cálculo, a lei da gravitação universal e a natureza das cores.

Em 1671, o cientista assumiu o cargo de professor catedrático de matemática da Universidade de Cambridge. No ano seguinte, entrou para a Royal Society, da qual se tornou presidente mais tarde. Dois anos depois, sagrou-se cavaleiro. Sir Isaac Newton, portanto. De 1687 a 1690, foi membro do Parlamento. Quando se mudou para Londres, em 1696, virou superintendente da Casa da Moeda.

Isaac Newton faleceu na noite de 20 de março de 1727 (31 de março no calendário atual), devido a problemas renais. Newton viveu sozinho, sem nunca ter casado ou mantido relacionamento amoroso sério. O cientista foi enterrado na Abadia de Westminster, ao lado de outros grandes nomes do Reino Unido.

“Até o último dia de sua vida, Newton trabalhou incansavelmente pela valorização da ciência e sua importância para a humanidade”, finaliza Jane. Se vislumbrava o universo de cima dos ombros de gigantes, certamente tem seus ombros agora disputados por quem vislumbra um lugar na ciência.

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